Por MA Tristão
Pra variar, eu atrasada! Eram exatamente 11:40hs, trancando o portão de casa pra subir na moto e voltar pro serviço.... Quando de repente um senhorzinho, bem velinho, olhar desconfiado, passos "preguiçosos"... trajava uma calça social bege (mais pro lado do marrom) e uma camisa de manga curta azul, levava no rosto um óculos de grau e os sinais da idade avançada, na mão, um papel enrolado e fechado com um elástico. Tranquei o portão e senti que ele tinha parado atrás de mim, virei e olhei pra ele, e antes que qualquer palavra fosse trocada entre nós dois, eu já tinha em mente a resposta pra pergunta que eu nem sabia: Hoje eu não tenho nada, nada mesmo pra "arrumar pro senhor". Convenhamos que a quantidade de pedintes na rua hoje em dia é assutadora, de uma hora pra outra, pedir tornou-se mais lucrativo que trabalhar. Vejo pessoas pedindo nos semáforos, nas ruas e calçadas do centro da cidade, nos estabelecimentos comerciais, na porta de casa então nem se fala. Mais a questão aqui nao é essa. Voltando ao senhor que encontrei na porta de casa, ao contrário do que eu pensava, ele não queria dinheiro, queria uma informação... Ele me olhou e disse: Boa tarde moça. Mais que depressa (apressadamente) respondi o cumprimento. Foi então que ele me indagou: Moça você sabe se tem uma escola por aqui?! Sujeito de sorte pensei, já que moro na rua de uma escola estadual. Mostrei pra ele onde ficava a escola, mais percebi que ele não estava satisfeito. Dito e feito. Ele perguntou: Você sabe o nome dela?! Falei: Sei sim, Sudário Ferreira. (E o relógio correndo) Enrolando mais ainda o papel já enrolado e a mim, ele me olhou e disse: É que me deram o endereço e disseram que essa escola é por aqui... A minha vontade era de pegar o papel na mão dele, que com certeza tinha a ver com a tal escola, ler, interpretar, dar a informação e vazar dali, porque em menos de quinze minutos eu tinha que picar o cartão do outro lado da cidade. Ufa, mais tudo bem, mantive a calma e perguntei pra ele: Em qual escola o senhor precisa ir?! Respondendo ele disse que era uma escola de uma tal de *Walquiria. Aí pensei: voltamos á estaca zero, e perguntei então o que ele precisava fazer lá, um pouco indiscreta eu sei, mais ué, se ele queria a informação certa, pr'a realmente ajudar eu precisava de mais detalhes. Foi quando ele me olhou, abaixou a cabeça e disse: Preciso fazer MINHA matrícula, tenho pouco estudo e vou voltar a estudar.!!! "C-A-R-A-C-A" essa era a última resposta que eu imaginava ouvir. Sério, era mais fácil eu imaginar ele dizer que só queria saber á toa, ou porque só estava passando por ali, ou talvez (a mais óbvia de todas) que era a escola do netinho dele (já que a idade não o permitia mais ter filhos que estudem em uma escola estadual). Mais quando ele disse que ia estudar eu fiquei de cara, e feliz também. Gente, aquele senhor quer estudar!!! Com aquela idade ele vai enfrentar todas as dificuldades possíveis e sentar em uma carteira escolar. Com aquela idade ele quer aprender mais e quem sabe até completar os estudos. A minha vontade e o meu reflexo era de abraçar ele e dizer: Parabéns, o senhor é um guerreiro, e me enche de orgulho. Continua sim, não pára que eu tenho certeza que o Senhor vai conseguir. Mais não, ao invés disso olhei pra ele e disse: Por aqui só tem essa escola mesmo, mais quem sabe o senhor indo lá, eles não te informam onde fica essa outra.!?! =) Ele agradeceu, pediu desculpas e continuou seus passos tímidos. Subi na moto e vim pensando.... Porque será que ele quer voltar a estudar?!!?!? Talvez ele precise assinar documentos e quer aprender a ler pra isso. Ou quem sabe ele quer apenas ler histórinhas pros netinhos (adorei essa alternativa =) , ou talvez ele queira escrever poemas pra sua esposa, ou namorada.. Pode ser também que ele queira uma tarefa que o ajude a passar o tempo, ou realizar um grande sonho: ler e escrever sozinho. Talves ele tenha sido pressionado pelo filhos, ou provavlemente humilhado por alguém que saiba ler e escrever, mais não que tenha aprendido o significado de respeito. Sei lá, são inúmeras alternativas, umas cabíveis, outras nem tanto. Mais não interessa, o fato é que aquele senhor realmente quase me matou de orgulho. Ele me encorajou a continuar buscando o que eu quero, e até mesmo retomar na busca pelo que já tinha desistido, entendi hoje o verdadeiro significado de: NUNCA É TARDE... Aprendi mais ainda que pra ser feliz não é precisa muito, e se você pensa assim é porque acha que felicidade se mede, e idealizou uma felicidade a ser alcançada. Estranho é sentir que quanto mais corremos atrás dela, mais ela se afasta de nós.... Talvez porque quando á estamos quase alcançando, ela já não nos satisfaça completamente... E você aí? Já sabe ler, escrever e reconher a F-E-L-I-C-D-A-D-E ?! =)


